Dói-me

Dói-me. Uma dor que começa sempre na nuca e acaba por conquistar tudo.
A dor é mais forte que a vida. Vence-a mesmo quando a não aniquila.
Viver com dor não é viver, é doer.
A dor põe a sua vida em saldo: vendemos a vida a baixo preço a quem conseguir levar a dor.
Em última análise, oferecemos a vida em troca do fim da dor. O fim de tudo há-de engolir também a dor.
E dizem a não há dor na morte, apenas no morrer. Dizem – e eu acredito.

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Ilha

Na Ilha da Felicidade a Lei de Newton não se aplica porque os corpos não têm peso. Sei-o bem porque por lá estive durante uns anos e não carregava fardo algum nem sabia o que isso era.

Fui expulsa da Ilha da Felicidade, com um pontapé nos ossos, por alturas da adolescência. Sim, com um pontapé nos ossos que me dói até hoje.

É provável que se tenha partido definitivamente alguma ossada porque me sinto engessada desde então: um gesso frio, duro, pesado – sobretudo pesado – que me cobre a carcaça e me distancia da vida.

É verdade que reúno infindáveis autógrafos, alguns de gente que já não recordo e até de gente que gostaria de não recordar. E há quem, do alto da sua sapiência, tenha assinado o gesso a lápis sabendo que por ali estaria pouco tempo e não valeria a pena deixar grandes marcas. Em cima dessas, outras se inscreveram, num processo de fusão sem espaço nem tempo, que contraria as categorias kantianas.

Onde estão as criaturas que me gatafunharam a carapaça?

Durante algum tempo acreditei que as feridas sarariam e acabaria por serrar o gesso.

Agora percebo que o gesso se colou à carne e aos ossos e que é indistinta a distinção entre o que sou e o que não sou. O gesso pesado, duro e frio ganhou terreno ao sangue quente: “recorda-te que és pó e em pó te hás de tornar”.

Às vezes ainda me perco em sonhos na Ilha da Felicidade. E se? E se? E se?

Acordo, aconchego-me dentro das liga-duras, e tomo nota para não me esquecer de comprar os analgésicos.

Egos

Esmagam-me os egos inchados, inflamados, que proliferam a meu redor. E ainda assim admiro-os.

Admiro-lhes a velocidade – talvez furiosa – com que disparam palavras, ideias intrincadas e projectos de sucesso. Admiro-lhes a inesgotável capacidade de parir sem que isso lhes mingúe o inchaço – que, contrariando toda a lógica, ainda medra a olhos vistos.

E esmagam-me com o peso do seu Eu – fardo claramente excessivo para o meu cabisbaixo lombo.

 

Esse eu que eu nunca fui

Sou tão pouco do que quero ser.
E creio que ando de marcha a rés, cada vez mais longe desse eu que eu nunca sou.

A caminho, estou a caminho – tento convencer-me nos dias em que tento organizar a vida, despir a velha pele para ter lugar para a outra – desse eu que eu nunca sou. A perder terreno, a perder a corrida – penso em todos os outros dias.

Há entre mim e esse eu que eu nunca sou o peso dos dias em que me ausento de mim, em que alivio a carga com um “volto já” escarrapachado na fronte.
E cada vez volto menos.
E o “já” demora-se cada vez mais.
E o “já” começa a ser um já-mais.

Hoje acordei com ganas de perseguir esse eu que eu nunca sou.
Correr o que for preciso para o apanhar.
Vamos lá!!! – gritei.
Mas passei aqui para escrevenhar isto e receio que o gajo tenha ganho ainda mais terreno.
Vou-me a ele!despir

Foto retirada daqui: https://poetrysfeelings.wordpress.com/page/2/

E se?

 

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E se o ser humano nascesse sem raça, sexo, idade ou qualquer outra herança?

E se começassemos sem diferenças que nos distinguissem uns dos outros?

E se fossemos seres totalmente em aberto, cuja metamorfose estivesse inteiramente dependente dos valores, dos conhecimentos, das atitudes assumidos ao longo da vida?

Liberdade?
Sim, Liberdade – então poderíamos falar de liberdade sem enrolar a língua.

Liberdade para pintar a tela com as cores que ainda não foram inventadas.

Liberdade para ser.
Liberdade.

 

 

Forças

Há forças que só se mostram quando caímos, forças que desconhecíamos, forças que emergem de um desesperado “não aguento mais!” – e de outro, e de outro…

E aguentamos mais – curiosamente, aguentamos quase sempre mais.

É isso que somos, forças em frágil desequilíbrio, forças que se forçam mas se reforçam  – precisamente quando os limites pareciam ultrapassados.

Mas é uma pena que tenhamos que ficar sem gasolina para conhecermos a capacidade da nossa reserva.

Dor

Não há tristeza ou alegria, apenas dor.
Dor como modo de vida, de estar, de ser.
Dor que tudo enche, insufla.
As coisas do mundo bailam no palco e eu assisto, miopiamente, sem nada que me ligue a elas. Não faço parte da dança nem consigo escutar a música que as faz saltar.
Dança! Dança, mundo!
Não esperes por mim. Não esperes nada de mim pois não tenho célula alguma que te sinta o ritmo, que te siga, que te acompanhe.
Não sou daqui – fui deixada por engano e já não espero que me voltem a buscar.
Sou dor apenas e para ela vivo.
Os meus dias não são feitos de horas, mas de dor. É fim de semana quando consigo adormecer a dor; segunda-feira quando ela grita no seu máximo esplendor.
Especializei-me na arte de contar histórias à dor; ela especializou-se em resistir às minhas incursões.
Se algum sentido há nisto a que chamam vida é trocar-lhe as voltas, anestesiar a dor da lucidez.