insónia

Planear o dormir
embalar a lucidez
enganar a vigília:
ao estalar dos dedos a-dor-me-ces.

Os dedos que estalam
a espreitar os olhos que vigilam.
O sisudo a jogar-se
num empate que é eterno.

No apurar dos vencedores
Comparecem somente vencidos.
Há venc-idos sem vence-dores?
Só há dores,
só há dores.

Planear o dormir
embalar a lucidez
enganar a dor:
ao estalar dos dedos já não dói,
já não dói.

Dói?

Vai-te à Vida, Filha.

A morte é preta e preta é a cor que me preenche.
Nada há mais neste avesso do que pareço senão a morte em desejo, o preto em solfejo.
Pre-to-Mor-te
A vida tem duas sílabas que se lêem de um sopro: o sopro da vida.
Vi-da-Vi-da
Me-do.
Tenho medo da vida, carinho pela morte.
Não a morte de horror mas a morte de alívio, o fim o peso que cai eternamente sem terra onde (re)pouse.
Hoje sonharei com a morte mas amanhã acordarei para a vida.
A vida é uma filha da puta que não nos deixa em paz. Vai-te à vida, filha!

Dói-me

Dói-me. Uma dor que começa sempre na nuca e acaba por conquistar tudo.
A dor é mais forte que a vida. Vence-a mesmo quando a não aniquila.
Viver com dor não é viver, é doer.
A dor põe a sua vida em saldo: vendemos a vida a baixo preço a quem conseguir levar a dor.
Em última análise, oferecemos a vida em troca do fim da dor. O fim de tudo há-de engolir também a dor.
E dizem que não há dor na morte, apenas no morrer. Dizem – e eu acredito.

Ilha

Na Ilha da Felicidade a Lei de Newton não se aplica porque os corpos não têm peso. Sei-o bem porque por lá estive durante uns anos e não carregava fardo algum nem sabia o que isso era.

Fui expulsa da Ilha da Felicidade, com um pontapé nos ossos, por alturas da adolescência. Sim, com um pontapé nos ossos que me dói até hoje.

É provável que se tenha partido definitivamente alguma ossada porque me sinto engessada desde então: um gesso frio, duro, pesado – sobretudo pesado – que me cobre a carcaça e me distancia da vida.

É verdade que reúno infindáveis autógrafos, alguns de gente que já não recordo e até de gente que gostaria de não recordar. E há quem, do alto da sua sapiência, tenha assinado o gesso a lápis sabendo que por ali estaria pouco tempo e não valeria a pena deixar grandes marcas. Em cima dessas, outras se inscreveram, num processo de fusão sem espaço nem tempo, que contraria as categorias kantianas.

Onde estão as criaturas que me gatafunharam a carapaça?

Durante algum tempo acreditei que as feridas sarariam e acabaria por serrar o gesso.

Agora percebo que o gesso se colou à carne e aos ossos e que é indistinta a distinção entre o que sou e o que não sou. O gesso pesado, duro e frio ganhou terreno ao sangue quente: “recorda-te que és pó e em pó te hás de tornar”.

Às vezes ainda me perco em sonhos na Ilha da Felicidade. E se? E se? E se?

Acordo, aconchego-me dentro das liga-duras, e tomo nota para não me esquecer de comprar os analgésicos.

Egos

Esmagam-me os egos inchados, inflamados, que proliferam a meu redor. E ainda assim admiro-os.

Admiro-lhes a velocidade – talvez furiosa – com que disparam palavras, ideias intrincadas e projectos de sucesso. Admiro-lhes a inesgotável capacidade de parir sem que isso lhes mingúe o inchaço – que, contrariando toda a lógica, ainda medra a olhos vistos.

E esmagam-me com o peso do seu Eu – fardo claramente excessivo para o meu cabisbaixo lombo.

 

Esse eu que eu nunca fui

Sou tão pouco do que quero ser.
E creio que ando de marcha a rés, cada vez mais longe desse eu que eu nunca sou.

A caminho, estou a caminho – tento convencer-me nos dias em que tento organizar a vida, despir a velha pele para ter lugar para a outra – desse eu que eu nunca sou. A perder terreno, a perder a corrida – penso em todos os outros dias.

Há entre mim e esse eu que eu nunca sou o peso dos dias em que me ausento de mim, em que alivio a carga com um “volto já” escarrapachado na fronte.
E cada vez volto menos.
E o “já” demora-se cada vez mais.
E o “já” começa a ser um já-mais.

Hoje acordei com ganas de perseguir esse eu que eu nunca sou.
Correr o que for preciso para o apanhar.
Vamos lá!!! – gritei.
Mas passei aqui para escrevenhar isto e receio que o gajo tenha ganho ainda mais terreno.
Vou-me a ele!despir

Foto retirada daqui: https://poetrysfeelings.wordpress.com/page/2/

E se?

 

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E se o ser humano nascesse sem raça, sexo, idade ou qualquer outra herança?

E se começassemos sem diferenças que nos distinguissem uns dos outros?

E se fossemos seres totalmente em aberto, cuja metamorfose estivesse inteiramente dependente dos valores, dos conhecimentos, das atitudes assumidos ao longo da vida?

Liberdade?
Sim, Liberdade – então poderíamos falar de liberdade sem enrolar a língua.

Liberdade para pintar a tela com as cores que ainda não foram inventadas.

Liberdade para ser.
Liberdade.