Esta noite dormi contigo

Esta noite dormi contigo.
Dormi contigo como se o pudesse ter feito, como se o pudesse fazer.
Havia espaço na tua cama, como nas camas dos amigos que ali estavam mas, quando entrei, não tive dúvida que era à tua que pertencia.
Chegaste-te para um dos lados, baixaste os cobertores, entrei, abraçaste-me, adormecemos – como se nunca tivéssemos feito outra coisa, como se nos pertencessemos, como se pudessemos ser.
Acordei dez horas depois – eu que nunca durmo mais que duas ou três – ainda a sentir o teu abraço, o teu embalo, o teu cheiro, no sonho que foi mais vivo que a vida que me obrigo a viver.
Esta noite vou procurar que a minha cama volte a ser a tua, e vamos voltar a dormir juntos pela primeira vez.

Anúncios

Egos

Esmagam-me os egos inchados, inflamados, que proliferam a meu redor. E ainda assim admiro-os.

Admiro-lhes a velocidade – talvez furiosa – com que disparam palavras, ideias intrincadas e projectos de sucesso. Admiro-lhes a inesgotável capacidade de parir sem que isso lhes mingúe o inchaço – que, contrariando toda a lógica, ainda medra a olhos vistos.

E esmagam-me com o peso do seu Eu – fardo claramente excessivo para o meu cabisbaixo lombo.

 

Esse eu que eu nunca fui

Sou tão pouco do que quero ser.
E creio que ando de marcha a rés, cada vez mais longe desse eu que eu nunca sou.

A caminho, estou a caminho – tento convencer-me nos dias em que tento organizar a vida, despir a velha pele para ter lugar para a outra – desse eu que eu nunca sou. A perder terreno, a perder a corrida – penso em todos os outros dias.

Há entre mim e esse eu que eu nunca sou o peso dos dias em que me ausento de mim, em que alivio a carga com um “volto já” escarrapachado na fronte.
E cada vez volto menos.
E o “já” demora-se cada vez mais.
E o “já” começa a ser um já-mais.

Hoje acordei com ganas de perseguir esse eu que eu nunca sou.
Correr o que for preciso para o apanhar.
Vamos lá!!! – gritei.
Mas passei aqui para escrevenhar isto e receio que o gajo tenha ganho ainda mais terreno.
Vou-me a ele!despir

Foto retirada daqui: https://poetrysfeelings.wordpress.com/page/2/

E se?

 

6aff836048829d61572085575d3650d0--art-ideas-art-photography

E se o ser humano nascesse sem raça, sexo, idade ou qualquer outra herança?

E se começassemos sem diferenças que nos distinguissem uns dos outros?

E se fossemos seres totalmente em aberto, cuja metamorfose estivesse inteiramente dependente dos valores, dos conhecimentos, das atitudes assumidos ao longo da vida?

Liberdade?
Sim, Liberdade – então poderíamos falar de liberdade sem enrolar a língua.

Liberdade para pintar a tela com as cores que ainda não foram inventadas.

Liberdade para ser.
Liberdade.

 

 

Forças

Há forças que só se mostram quando caímos, forças que desconhecíamos, forças que emergem de um desesperado “não aguento mais!” – e de outro, e de outro…

E aguentamos mais – curiosamente, aguentamos quase sempre mais.

É isso que somos, forças em frágil desequilíbrio, forças que se forçam mas se reforçam  – precisamente quando os limites pareciam ultrapassados.

Mas é uma pena que tenhamos que ficar sem gasolina para conhecermos a capacidade da nossa reserva.

Dor

Não há tristeza ou alegria, apenas dor.
Dor como modo de vida, de estar, de ser.
Dor que tudo enche, insufla.
As coisas do mundo bailam no palco e eu assisto, miopiamente, sem nada que me ligue a elas. Não faço parte da dança nem consigo escutar a música que as faz saltar.
Dança! Dança, mundo!
Não esperes por mim. Não esperes nada de mim pois não tenho célula alguma que te sinta o ritmo, que te siga, que te acompanhe.
Não sou daqui – fui deixada por engano e já não espero que me voltem a buscar.
Sou dor apenas e para ela vivo.
Os meus dias não são feitos de horas, mas de dor. É fim de semana quando consigo adormecer a dor; segunda-feira quando ela grita no seu máximo esplendor.
Especializei-me na arte de contar histórias à dor; ela especializou-se em resistir às minhas incursões.
Se algum sentido há nisto a que chamam vida é trocar-lhe as voltas, anestesiar a dor da lucidez.

ConSoada

Tarde de 24 de Dezembro, no Cais do Sodré: gente apressada que talvez saiba para onde corre; um cão de laçarote vermelho e colete de pele – pele de cão? -; um coro natalício que grita o Feliz Natal a todos os amigos desconhecidos.
Uma voz sobrepõe-se – não pela intensidade, mas pela disparidade – e um ferrugento carro de compras, atulhado dos restos de outras vidas, acompanha-a guinchando: “Tão preocupados com o bacalhau? Eu, c’o que cato no lixo, nem no caldo verde tenho que pensar!”.lixo